Eis o comentário (a poesia) da notícia.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sexta Feira 13




Final de uma noite boemia
caminhando por uma estrada de chão
não querendo atropelar minha sombra
construída pela lua cheia ao sul.
Lavoura de milho ao lado
assombrado por um espantalho
ali parado me penalizando
com suas palhas velhas enrugadas.
Após essa noite de delírios
agarrado a uma branquinha,
não consigo sentir esse cheiro
fétido de algo mais perto,
tão próximo do cangote.
Por detrás uma voz penetrante,
ar frio ao pé do ouvido.
A minha espinha, se ainda existe,
desloca-se para baixo arrepiando.
Pernas mal tratadas pelo trabalho
não resiste ao impacto da solidão,
e fui direto ao encontro do chão.
Permitindo àquele que sussurrava
apoderar-se da situação incômoda.
Não conseguindo olhar ao redor.
Mão pálida vindo ao meu encontro
por sobre o ombro castigado pelo sol.
Jamais pensei, jamais acreditei
que um dia viveria para morrer
dessa forma tão dramática.
Aquela mão fina e gélida
cheia de más intenções
veio direto para o meu braço.
Trazendo-me à tona a superfície,
com olhos envidraçados, empoeirados.
Enxergando um vulto esbranquiçado
da pele de uma senhora
que ajudava a me levantar
da queda que sofri.
Velha com traços encarquilhados,
encurvada pela falta aparente da força,
chama-me para perto de seu colo
imaginando eu, o seu afago.
Sem tempo para qualquer reação
essa senhora coloca-me em uma carroça
junto com restos mortais,
daqueles que foram encorajados
a se desfazer daquilo
que era o objeto mais útil a eles.
Após algum tempo ali deitado
enfeitiçado pelo odor putrefato,
a mula para em algum lugar
por entre árvores delgadas.
Jogado em uma clareira feita,
no meio de um círculo,
sob algumas rezas não-cristãs.
Começa o ato de pura orgia.

Murilo Conti Vieira
13/08/2010

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